Descia as escadas do cinema, com dificuldade. Os passos incertos e os braços flácidos mostravam a avançada idade. Sob o coque asseado, branco e lustroso como os lençóis de cetim da sua lua-de-mel, estava sua nuca lisa. Lisa, aveludada, com algumas sardas e incrivelmente jovem. Pergunto-me quantos amantes não quereriam, agora, contar todas as sardas da sua nuca e beijá-la com fervor adolescente e paciência experiente. Um punhado. Talvez um deles a admirasse há anos, admiração que o tempo não apagou, e sonha há anos com sua nuca. Talvez nunca tenha dito a ela pois pensa que é demência não esquecer uma nuca. Com certeza teremos algo em nós que nunca será esquecido, algo que carregue um frenesi adolescente para sempre.
E é nauseante, no frenesi adolescente de hoje, perceber que não nos falta tempo para amar.
quarta-feira, janeiro 02, 2008
quarta-feira, novembro 14, 2007
Tu vens
"A voz do anjo sussurrou no meu ouvido
-eu não duvido, já escuto os teus sinais-
que tu virias numa manhã de domingo
Eu te anuncio nos sinos das catedrais..."
Noticiaram no jornal que chegará uma frente fria nesta madrugada.
(Mal sabem eles que frente fria, com sua vinda, significa brisa do mar invadido a serra às cinco da matina.)
"Tu vens, tu vens
eu já escuto os teus sinais"
Alceu Valença
quinta-feira, novembro 08, 2007
5 meses
brás, brigadeiro, butantã
bordinha do aeroporto de congonhas
a rebordar-se em flor (bordô)
metrô metrificando a direito
e a torto os versos miméticos
matutos matutinos
vespertinos, na tarde a virar
o vão do masp ao avesso
velado, vermelhoanil
o concreto armado ri-se bobo
daquele bombocado-bem-beijado
beijo no belo horizonte...
bordinha do aeroporto de congonhas
a rebordar-se em flor (bordô)
metrô metrificando a direito
e a torto os versos miméticos
matutos matutinos
vespertinos, na tarde a virar
o vão do masp ao avesso
velado, vermelhoanil
o concreto armado ri-se bobo
daquele bombocado-bem-beijado
beijo no belo horizonte...
quarta-feira, novembro 07, 2007
Foto-mutante 1872
O passado passa, passeia por entre essas ruas ladrilhadas com pedrinhas de brilhantes (estilhaços de garrafas embriagadas). Suga vida com sua ávida boca negra. Está nos livros sujos e amarelos entregues às traças, inertes. Na platéia cujas palmas das mãos já dóem. Nos cadáveres envoltos em flores sendo carcomidos por vermes. Nestas ladeiras furiosamente pacatas por onde desabam casas de avós. Nestas casas onde os rebocos sucumbem à ferocidade do tempo e, abandonados, esvaem-se com a vida e morte que não possuem.
O passado está nos seus olhos cinzas e turvos. Piscou. E acastanharam-se, sorridentes.
O passado está nos seus olhos cinzas e turvos. Piscou. E acastanharam-se, sorridentes.
sexta-feira, agosto 03, 2007
Num soluço, a outra linha
poesia fugaz
veio! e foi! e virou outra linha
já perdi a redondilha
e a rima? e os versos alexandrinos?
perdidos, perdidos
e o amor, subjetividade
e o vaso grego?
poderia ser prosa, mas perdi o fôlego.
poderia ser prosa, mas tô com preguiça.
poderia ser prosa, mas maiúsculas exigem o shift junto.
poderia ser prosa, mas não tenho coordenação motora.
poderia ser prosa, mas hoje tô "de poucas palavras".
poucas palavras? até demais! mas, sinceridade...
prefiro cerveja e revolução na praça da sé.
eteriza
enteriza
eterniza
tu.
depois cai no canto e dorme, que é bom, chico!
veio! e foi! e virou outra linha
já perdi a redondilha
e a rima? e os versos alexandrinos?
perdidos, perdidos
e o amor, subjetividade
e o vaso grego?
poderia ser prosa, mas perdi o fôlego.
poderia ser prosa, mas tô com preguiça.
poderia ser prosa, mas maiúsculas exigem o shift junto.
poderia ser prosa, mas não tenho coordenação motora.
poderia ser prosa, mas hoje tô "de poucas palavras".
poucas palavras? até demais! mas, sinceridade...
prefiro cerveja e revolução na praça da sé.
eteriza
enteriza
eterniza
tu.
depois cai no canto e dorme, que é bom, chico!
segunda-feira, junho 04, 2007
Cantiga do poeta vivo que reviveu, morto.
Algo se perdeu no texto...
assim!, entre as entrelinhas
entre todas redondilhas
e todas prosas a esmo.
Ai de mim!, perdi a rima!
Ai de ti!, perdeu desejo!
E o amor esconde no ensejo o
que o tempo esconde na brisa.
Toda a emoção e paz
a obscurecer a letra...
Só essa inspiração fugaz
A brincar comigo, leda!
Ai de mim!, perdi a rima!
Ai de ti!, perdeu desejo!
E o amor esconde no ensejo o
que o tempo esconde na brisa...
*
... E o quê o tempo esconde na brisa?...
assim!, entre as entrelinhas
entre todas redondilhas
e todas prosas a esmo.
Ai de mim!, perdi a rima!
Ai de ti!, perdeu desejo!
E o amor esconde no ensejo o
que o tempo esconde na brisa.
Toda a emoção e paz
a obscurecer a letra...
Só essa inspiração fugaz
A brincar comigo, leda!
Ai de mim!, perdi a rima!
Ai de ti!, perdeu desejo!
E o amor esconde no ensejo o
que o tempo esconde na brisa...
*
... E o quê o tempo esconde na brisa?...
domingo, junho 03, 2007
Eidetismo III
Esse branco me irrita. Tenho uma folha em branco na minha frente, mas ela me irrita. Quero rasgá-la com os dentes, mas a folha é indestrutível. Ela me provoca nessa branqueza toda. Ela me provoca desde sempre. O branco é um despudor de luz; o branco é quem quer que esteja fora disso tudo cuspindo na nossa cara. A folha em branco é uma afronta. A tábula rasa também é uma afronta.
E nós temos nossas mãos que estão atadas. Os punhos cerrados, a contração, a contrição. Nascemos para o despreparo, e por mais que tentemos deixar nossa marca, ela esvanece com o tempo. O que resta é a tábula rasa que não conseguimos marcar - não do jeito que imaginávamos. O que resta é essa experiência vil, experiência que não consegue enfrentar a folha em branco. Não cospe de volta. Não rabisca, não molha, não rasga, não pinta, não suja. Não há sombra.
Há a criança, a última criança, sentada no chão e encostada nas ruínas do muro, folheando páginas em branco de um livro que a humanidade não foi capaz de escrever - embora o branco não a incomodasse nem um pouco.
E nós temos nossas mãos que estão atadas. Os punhos cerrados, a contração, a contrição. Nascemos para o despreparo, e por mais que tentemos deixar nossa marca, ela esvanece com o tempo. O que resta é a tábula rasa que não conseguimos marcar - não do jeito que imaginávamos. O que resta é essa experiência vil, experiência que não consegue enfrentar a folha em branco. Não cospe de volta. Não rabisca, não molha, não rasga, não pinta, não suja. Não há sombra.
Há a criança, a última criança, sentada no chão e encostada nas ruínas do muro, folheando páginas em branco de um livro que a humanidade não foi capaz de escrever - embora o branco não a incomodasse nem um pouco.
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