quinta-feira, agosto 14, 2008

Estanque

Uma pessoa em pé, imóvel, no meio da XV de novembro, enquanto borrões passam apressados de lá pra cá, de cá pra lá. Daqui até longe, até a Sé, até o Vale. O movimento sempre borra, nos ensinou algum cineasta. Borrões, menos a intocavelmente nítida pessoa - tocada por vinte esbarrões por minuto. Esborrões. Ah, sem mais.

Onde estão aquelas palavras de três anos atrás? Elas eram tão minhas que me assustavam. Esse despotismo escrivinhador aos 16 anos fez de mim rei-sol de algum mundo onde tanta luz não ofendesse as retinas dos transeuntes. Essas palavras criaram uma via de teletransporte, antes que o próprio teletransporte fosse inventado. Pensei que ele já estaria disponível depois de três anos.

Pensar na disponibilidade do futuro é deveras curioso. Nesse meu presente de grego, futuro do pretérito, que sou? Indisponível. O futuro não está nas nossas mãos. O que está em nossas mãos são os esbarrões dos borrões. Os esborrões. Ah, sem mais!...

quarta-feira, julho 09, 2008

Solilóquios VI

(...) senti uma súbita falta da existência despretensiosa, um mundo de sutilezas e eufemismos onde as palavras nada tocam além de si próprias; existem por sua própria leveza e graça, sem dizer respeito aos sentimentos que assolam a humanidade (essa pandemia irrevogável). À palavra o que lhe é própria: a pressão nos lábios, língua nos dentes, vibrações no céu da boca, e a certeza de que elas não tocam recantos profundos do outro a não ser através de insondáveis ecos. Ao sentimento o que é sentido: sinta, e eu não falo.

sexta-feira, junho 13, 2008

Boca adentro

"Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe"
"Primavera nos Dentes", Secos e Molhados

O sorriso, prendemos nos lábios. A primavera, seguramos nos dentes. O choro, aprisionamos na garganta.

O que seria a revolução das emoções, soltura dos lábios dentes garganta, vida jorrando de rostos aflitos, vida correndo o peito aberto, vida corrida, vida solta, língua solta, linguagem muda mais que falada. A vida que nos é dada boca adentro e a vida que grita boca afora.

Aperta a garganta, cerra os dentes, move os lábios. Grita boca afora.

domingo, junho 01, 2008

Amora

a amora antes que ela exploda
no dedo seu, no dedo meu
no céu da boca

sua boca, minha boca
no céu
lábio e sorte.

Café

"Coffee is pouring out my ears
It's the only thing they have in here
And my heart stops beating"
"Heartstopper", Emiliana Torrini

Me vê mais um maravilhoso suculento delicioso café moka forte e uma cesta de pães com geléia de damasco - uma ótima, ótima, excelente escolha! - , mas só se for nesse seu jeito assim alucinante, assim ligeiro, assim esperto, assim encafezado-mas-nunca-enfezado, assim nessa pressa dessa cidade que não tem tanta pressa nesses meus dias de férias.

- Moço, seu café é mais café desse jeitim assim que você coloca na mesa, sabia?


Daqueles textos junto com a Lí, que me deram uma saudade danada.

segunda-feira, maio 12, 2008

Pais

Vejo lacunas no passado
- algo não estava certo.
Algo faltou, o algo é muito;
as lacunas, vastas.

Perco-me em lamentos
estando, no entanto, inteira:
nas lacunas pousaram
os dedos do improvável.

domingo, maio 11, 2008

42

"Vem comigo, vem
já tenho quase tudo que me basta
a flor do pasto, a mesa posta
minha música e teu calor
agora só me falta aprender o silêncio"
Zeca Baleiro, "O Silêncio"


Essa escrivinhadura é vontade de ouvir o som do teclado. Aceita a quietude - não aceito. Aceita a calma - não aceito. Mente quieta e dedos inquietos, é isso que escrevo sem escrever. Eu estou escrevendo um som agora que vocês não irão ouvir, mas que me alegra. O som corta o silêncio que não existe: teclado, tecidos dobrados, ferro-de-passar, corrida de fórmula um, carro na rua, piano do vizinho, sinfonia.

Quero que entendam o silêncio que não existe porque não entendo o silêncio que existe, ele não se quer explicado. Acho que o silêncio é um hiato. Talvez ele se esconda de mim, pronto p'ra dar um susto quando eu abrir a porta. Quando abrir a porta, conto a surpresa. Quando contar, talvez entenda.

Não entendo, mas desconfio que esse silêncio tenha completude. Sim entendo, é essa falta das palavras que saem. Não entendo, mas desconfio que me faça bem. Sim entendo, foram as palavras que tirou do meu ouvido com sua boca. Entenda-não-entenda, esse silêncio é a companhia que me deixa. Entenda, você nunca me deixa só.