segunda-feira, abril 24, 2006

Bianca

Criava em sua cabeça, detalhadamente, sua vida de cinema. Andava de um lado para o outro, a música alta para não ouvir sua voz narrando e tornar tudo mais real. Mas isso foi antes da parede.

Ah!, com clareza via a parede mais alva e bianca de sua vida. Encontou sua testa na Bianca. Via suas mechas de cabelo negro, e veio o tombo pra cima, e estatelou-se no céu: estava dentro de si mesma; as mechas eram a moldura e o mundo era um quadro desafiador. Olhou para seus dedos longos e acompanhou suas mãos enquanto elas escorregavam na parede. Viu seus pés, seu vestido de chita, levantou-o para ver melhor suas pernas grossas, seus quadris largos, seu umbigo, seus seios pequenos - e a sentir a fria parede na sua testa. Seus dedos, suas mãos, a parede... Bianca. Ela estava dentro de si mesma, e não no espelho e nem em uma cena de seu filme. Ela: dentro de si mesma.

Testa em Bianca, olhou pra ela e falou: "estou viva", como quem conta vantagem. Sentiu Bianca em sua gélida (in)existência e colou cada centímetro do seu corpo nela. "Vê? Eu dou meu calor, eu sou viva. Você, não."

Começou a tocar o inanimado frio com firmeza, com seu corpo, com seu pensamento. Puerilmente resolveu descobrir que é viva, e se deu ao luxo de acordar mais tarde: hoje.

Se era viva, podia escolher. O sangue corre nas suas veias, nas suas vidas, era um belo exemplar da dança mais complexa de átomos que a natureza sempre presenciara. Podia escolher e começou a se arrastar no chão como uma serpente e todo o seu desejo. Podia ser humana ou não ser.

Mas era viva, e isso bastava.

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Ela (ou Em Copo d'Água)

Tentava dormir. Relembrava o dia como se fosse uma canção de ninar. Como acontecera algumas vezes, Ela parou em um momento e o reprisava mentalmente, como quem procura os sete arros. Como acontecera algumas vezes, os erros pareciam ir muito além de sete. Como acontecera algumas vezes, ela começou a chorar. A cena: mesa do café, Ela, pai, madrasta, seu pequeno irmão e a babá do mesmo.

Como era difícil fazer-se ouvir!, aproveitou o momento de silêncio para dividir. "Hoje estava olhando as matérias do curso de Comunicaçaõ Social da USP, elas parecem tão legais e..." fora interrompida pelo silêncio. Seu pai encarando o nada, a madrasta fitando-a fuzilante brevemente, a babá tentando entreter o pequeno que se recusava a comer, a madrasta desviando o olhar pra fazer a ele uma graça e o pai encarando o nada. Eles voltaram a conversar entre si, ficando Ela agora sós com sua própria voz ecoando torturante na sua cabeça. O pai percebia sua voz em alguns assuntos médicos e dificuldades na escola, parecia surdo para todo o resto. Sua madrasta parecia não ouvir nunca, mas quando ouvia era como se a voz d'Ela fosse apenas um guincho incômodo.

Lembrava disso, da agonia talvez desnecessária, e o choro tornava a sua respiração difícil. Sentou-se na cama abraçada ao travesseiro e fitou a penumbra incolor do seu quarto, e logo depois fixou seu olhar em uma feixe de luz que desbravava as costinas da janela.

Perceber que a cena era o enésimo remake de recorrentes adaptações de um roteiro original que ela queria rasgar com os dentes, jogar para o alto e queimar depois, como em um ritual macabro de quem procura liberdade. Sim, agora estava claro: amava seus amigos, seus amores, seu amor, mais que tudo. Entretanto, não é possível ter um lar quando se é anônima nele. Não é póssível viver sem um lar, não mais. Não é possível ficar. E era por isso que Ela partiria em breve.

Ainda encarando o feixe de luz, os olhos molhados e os lábios quentes, Ela sorriu. A cena era simples. Conseguir entender a fazia feliz.

Ligou o abajour e em seu caderninho esquecido, na página ao lado da lista de prós e contras do moço da memória, escreveu com sua voracidade habitual:
"Tentava dormir. Relembrava o dia como se fosse uma canção de ninar. Como acontecera..."

Autobiografia

(Não que minha vida seja digna de nota, ou que exista alguma lei metafísica de que as pessoas devessem realmente prestar atenção em mim; não quero parecer presunçosa. Talvez por isso queira falar hoje sobre como seria minha autobiografia, mas não de fato contar minha comum e tão facilmente reconhecível estória.

Primeiro o título, que em nada seria heróico: "Zuzu", o primeiro nome ao qual atendi, mas ao qual não atendo mais - não insistam!. Nada como uma lembrança para começar.)

O mais importante a dizer sobre a minha autobiografia é que seria repleta de coisas banais. Pois são as coisas banais que me fazem rir ou chorar - o que talvez lhes dê certa importância e distinção - , e que me fazem de pedra no que se julga realmente importante. E é essa dicotomia que me faz fragilmente forte.

domingo, novembro 20, 2005

Banjo

talvez fosse um banjo

desafinando
desafiando
desfiando
desfiado
refiado
fiado
ado

a dor...

vida afora.

quinta-feira, novembro 10, 2005

Sistema

Caminho na calçada
minha, minhas incógnitas
queridas, que passam.

Sentidos opostos; somos
afinal, o nosso caminhar,
nossos caminhos, nossos passos,

Nossos pés. Que nos levam,
que nos deixam,
que tropeçam sôfregos.

E vou, se chego:
termo independente nulo
na partida infinita.

E chego, se vou:
Solução trivial na inércia
de quem parte novamente.



Nota: Quinta-feira, quarto horário, Álgebra, sistemas lineares, solução trivial = {0,0,0}. A Matemática me toca de algum jeito que não deveria - antes isso que o óbvio da minha relação de ódio com Exatas.

P.S.: Parceria com a Lí, minha companheira no mundo da escrita. Tema sugerido por ela. Confiram a outra versão no Eu Sou Atoa!

segunda-feira, novembro 07, 2005

Talvez

talvez seja assim
talvez

os passos de dança
risos e prantos
malabarismos
ensaio

vãos
tranpiro inspiro-
me

ouve-se os aplausos
mas não vê-se a platéia

talvez estivesse lá
talvez.

(talvez a melhor platéia
seja a que nunca vejo;
seja a que só ouço.)

domingo, novembro 06, 2005

Little damaged man

"Oi?"
"Opa"
"Bom?"
"Yeah... Kind of..."
"Você nunca responde plenamente sim, não é mesmo?"
"Não existe felicidade plena..."
"Wrooooong! Não existe felicidade plena que dure para sempre, mas temos nossos momentos.
E também existem os momentos em que a felicidade não é plena, mas predomina a ponto de se responder, animadamente: 'sim! estou muito bem!' "
"Não... Não pra mim... Essa é a sua maneira de ver o mundo..."
"Vixi... Ok, vou tentar não te contagiar com o meu otimismo."
"Guarde ele pra você... Pode precisar dele mais tarde..."
"É, guarde seu pessimismo pra você, pode precisar dele mais tarde (?)... Tipo, mais tarde, sabe? Quando você estiver sendo feliz..."
"Sim... Uma dose de pessimismo é bom na felicidade... Diminui o tombo"
"(Tombos de rachar a cabeça e o coração são necessários... É um custo justo... Para não ficar comfortably numb)"
(...)
"Acho que estamos ficando velhos"
"Hoje eu fiquei meia hora me olhando no espelho, pra depois olhar mais cinco minutos, perplexa: perdi trinta minutos da minha vida me olhando no espelho!... Pensar isto é estar velha..."


E assim segue a vida, os diálogos, as interrogações, as exclamações, as reticências... Sem rumo e sem prumo. Tentando achar sentido no que talvez não tenha sentido nenhum. Não é melancolia pensar isso. Se você repetisse a palavra "bola" incessantemente até que essa perdesse seu significado, talvez a ausência de significado fizesse da palavra algo significativo. A falta de significado faz dela um mistério, o mistério engrandece.

Isso me leva à minha oração ao mistério, na falta de pretexto melhor pra orar. Mas isso fica pra outra ocasião.



P.S.: A dona flor à esquerda, the little damaged man to the right, cada um buscando o seu sentido.