O coração bate arretado, apertado, sem pressa de parar e com pressa de pulsar. Forte, doído. Como se quisesse irrigar o quarto vazio de sangue, como se as veias não fossem o caminho certo, como se estar dentro de si não fosse suficiente, como!
O que escapa à boca não escapa ao coração. Por isso o pulsar denso e o silêncio. Sopra uma voz anciã: "Criança... nunca foste de guardar tantas palavras".
Agora era, mas não por muito tempo. Aguardava, muda, que as palavras pulsassem fluidas por entres os dedos e fizessem uma lambança obtusa no quarto; passassem por debaixo da porta e inundassem corredor, cozinha e sala de jantar.
Quando o fluido não bastasse, as palavras dissolveriam-se no ar e seriam ouvidas por ouvidos desatentos, causariam calafrios, levariam alegrias inesperadas. Misturariam-se com a voz anciã até que ela fosse inaudível aos ouvidos de qualquer outro ente desavisado, mudo e a pulsar. Não mais faltariam palavras à boca. Não mais faltarão palavras ao coração.
terça-feira, abril 07, 2009
segunda-feira, novembro 10, 2008
Quase amores... desamores
Uma amora não é quase uma amora, quando verde. É já uma amora, sem a voluptuosidade do fruto que comemos. O devenir, a pretensão, ainda que haja interrupções (que não haja interrupção). É o presente do subjuntivo com futuro do presente do indicativo. É nossa projeção. Amora não é amor, porque esse me dá arrepios. Não quero usar essa palavra que flutua pela existência inominada. Não quero. Quero essa salada de frutas pouquíssimo diversificada. Quero amora. Não é mais tempo de amoras.
A ponta do meu dedo indica o futuro do pretérito: desamora. Sem projeções, sem pretensões. A ponta do meu dedo indica (vamos lá!) amor. Desamor. Como não?
A ponta do meu dedo indica o futuro do pretérito: desamora. Sem projeções, sem pretensões. A ponta do meu dedo indica (vamos lá!) amor. Desamor. Como não?
domingo, outubro 05, 2008
Blablablá Cósmico
Se tudo der errado, podemos nos embriagar até o chão ficar macio.
Se tudo der errado, podemos comprar um sonho com estrelas no céu, ou no lago.
Podemos passar o dia vendo filmes. Podemos passar o dia lendo livros. Podemos nos cercar de pessoas. Podemos dormir. Cinema, biblioteca, família, escola. Travesseiro.
Podemos esperar por turismo lunar. Esperar novas teorias, novas verdades, novas galáxias. Novas religiões, crendices, costumes. Podemos criar nossas próprias superstições, nossos jogos. Profanar o que há de sagrado e sacralizar o que há de profano. Se tudo isso cansar, criamos novos conceitos e nomes. Novas regras.
Só não podemos pensar que não há escapatória. O mundo é só escapatória.
Se tudo der errado, podemos comprar um sonho com estrelas no céu, ou no lago.
Podemos passar o dia vendo filmes. Podemos passar o dia lendo livros. Podemos nos cercar de pessoas. Podemos dormir. Cinema, biblioteca, família, escola. Travesseiro.
Podemos esperar por turismo lunar. Esperar novas teorias, novas verdades, novas galáxias. Novas religiões, crendices, costumes. Podemos criar nossas próprias superstições, nossos jogos. Profanar o que há de sagrado e sacralizar o que há de profano. Se tudo isso cansar, criamos novos conceitos e nomes. Novas regras.
Só não podemos pensar que não há escapatória. O mundo é só escapatória.
quinta-feira, agosto 14, 2008
Estanque
Uma pessoa em pé, imóvel, no meio da XV de novembro, enquanto borrões passam apressados de lá pra cá, de cá pra lá. Daqui até longe, até a Sé, até o Vale. O movimento sempre borra, nos ensinou algum cineasta. Borrões, menos a intocavelmente nítida pessoa - tocada por vinte esbarrões por minuto. Esborrões. Ah, sem mais.
Onde estão aquelas palavras de três anos atrás? Elas eram tão minhas que me assustavam. Esse despotismo escrivinhador aos 16 anos fez de mim rei-sol de algum mundo onde tanta luz não ofendesse as retinas dos transeuntes. Essas palavras criaram uma via de teletransporte, antes que o próprio teletransporte fosse inventado. Pensei que ele já estaria disponível depois de três anos.
Pensar na disponibilidade do futuro é deveras curioso. Nesse meu presente de grego, futuro do pretérito, que sou? Indisponível. O futuro não está nas nossas mãos. O que está em nossas mãos são os esbarrões dos borrões. Os esborrões. Ah, sem mais!...
Onde estão aquelas palavras de três anos atrás? Elas eram tão minhas que me assustavam. Esse despotismo escrivinhador aos 16 anos fez de mim rei-sol de algum mundo onde tanta luz não ofendesse as retinas dos transeuntes. Essas palavras criaram uma via de teletransporte, antes que o próprio teletransporte fosse inventado. Pensei que ele já estaria disponível depois de três anos.
Pensar na disponibilidade do futuro é deveras curioso. Nesse meu presente de grego, futuro do pretérito, que sou? Indisponível. O futuro não está nas nossas mãos. O que está em nossas mãos são os esbarrões dos borrões. Os esborrões. Ah, sem mais!...
quarta-feira, julho 09, 2008
Solilóquios VI
(...) senti uma súbita falta da existência despretensiosa, um mundo de sutilezas e eufemismos onde as palavras nada tocam além de si próprias; existem por sua própria leveza e graça, sem dizer respeito aos sentimentos que assolam a humanidade (essa pandemia irrevogável). À palavra o que lhe é própria: a pressão nos lábios, língua nos dentes, vibrações no céu da boca, e a certeza de que elas não tocam recantos profundos do outro a não ser através de insondáveis ecos. Ao sentimento o que é sentido: sinta, e eu não falo.
sexta-feira, junho 13, 2008
Boca adentro
"Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe"
Quem tem a força de saber que existe"
"Primavera nos Dentes", Secos e Molhados
O sorriso, prendemos nos lábios. A primavera, seguramos nos dentes. O choro, aprisionamos na garganta.O que seria a revolução das emoções, soltura dos lábios dentes garganta, vida jorrando de rostos aflitos, vida correndo o peito aberto, vida corrida, vida solta, língua solta, linguagem muda mais que falada. A vida que nos é dada boca adentro e a vida que grita boca afora.
Aperta a garganta, cerra os dentes, move os lábios. Grita boca afora.
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