segunda-feira, julho 03, 2006

Prosa

Prosa, prosa... vamos todos prosear! Assim, com muitas linhas e parágrafos e pontos e pontos-e-vírgulas usados inadequadamente com uma bocado de exclamações e muitas interrogações implícitas, sabe como?, daquelas de quem não está entendendo muita coisa dessa vida sem razão ou não quer que o leitor entenda, ou daquelas que muito têm a dizer e nada dizem, também muitas exclamações e vírgulas e como falasse muito rápido sempre se esquecera desses pontos e desses fins e disso assim, com medo de acabar e não voltar mais.

Mas volta, ufa, só pra dizer que prosa não é coisa sempre calma não quando esquecemos daquela nossa infância na fazenda em Mariana, onde até tinha minha própria árvore. Assunto pacato assim, de quem não sabe como vai ser a vida, simples assim, de quem não gosta de rebuscar tudo (pois tudo não é, afinal, muito mais simples do que pintamos?). Minha árvore era muito simples, ficava em frente à casa e à esquerda do riacho (e tive que estalar meus dedos agora pra saber que lado era, na memória eu só sei que ficava lá do ladinho). Ah!, o córrego: desde que falaram que existia um tal de peixe que parecia uma pedra e que, se pisássemos, espetaria e envenenaria e iríamos morrer eu e minha prima tínhamos medo até de pedra, vê se tem cabimento um negócio desses!

E essa prosa boba, cheia de conjunções no início do parágrafo, cheia de infantilidades do menino-menina-moça-mulher (será?) que, de repente, teve medo do futuro e dessa cidade que parece que quer engoli-lo. Nessa luta de titãs diária: ele quer engolir a cidade, a cidade quer engoli-lo, e o córrego tem direito a cheiro de enxofre e quilômetros de congestionamento diariamente em vez da minha laranjeira. E quem ouve-lê essa prosa besta pensa até que eu tenho medo desse presente, mas eu tenho medo mesmo é do futuro, que parece mais é uma assombração. E se o futuro é reflexo do presente, aqui errou-se e erra-se e fica errando e errado se erra para sempre?

Seria só mais um erro tentar imitar a fala da minha tia-avó só pra tentar não ter sotaque dessa terra que me encontro e fingir que nunca saí daí? Erro querer voltar, erro querer o passado sempre, erro pensar que tudo sempre foi assim, lindo, amarelo verde azul cor-de-rosa, achar que tudo foi perfeito, na tentativa de ser feliz me considerar feliz desde sempre e que minha vida é apenas um sonho prestes a acabar?

Na prosa besta de algodão-doce eu deixo um lembrete de que tristeza é fácil de esquecer, mas é boa, sim, e que fiquem as cicatrizes, sempre.